Por que não creio: ateísmo justificado
Lucas de Azeredo Crespi
Mestrando em Filosofia na UFRGS
14/08/2025

de Matheus Benites
Editora Dialética, 2025
195 páginas | Acesse aqui
É possível dizer que a história da Filosofia consiste, em boa medida, na história das questões que ela evoca enquanto campo do conhecimento. Entre elas, uma das mais destacadas e persistentes certamente é a de que se Deus existe ou não. O escritor, professor e mestre em filosofia pela PUC-Rio, Matheus Benites, propõe uma defesa incisiva do ateísmo. No livro “Por que não creio” (2025), o autor expõe um arsenal de motivos para argumentar que a crença na inexistência de Deus é a posição mais razoável e verdadeira. O resultado dessa empreitada, embora constitua uma interessante apresentação do ateísmo e seus argumentos, é uma obra com certos desequilíbrios de estrutura e tom.
A organização do livro é multifacetada. De modo geral, pode-se dividir o percurso argumentativo em dois blocos. O primeiro possui um enfoque filosófico ou conceitual, enquanto o segundo se apoia na história das religiões e na crítica textual dos livros sagrados. O bloco filosófico é composto pelos capítulos 1, 2, 6 e 7. O primeiro capítulo desmistifica o ateísmo como posição filosófica e apresenta um panorama de suas manifestações históricas; o segundo trata da diversidade religiosa e associa esse fenômeno ao chamado argumento do ocultamento divino; o sexto aborda o problema do mal; e o sétimo rebate argumentos a favor da existência de Deus. Já o bloco histórico-crítico se compõe dos capítulos 3, 4 e 5: o terceiro examina a Torá/Antigo Testamento, o quarto discute inconsistências tanto na Bíblia quanto na história do cristianismo, e o quinto examina criticamente os milagres.
A obra apresenta uma ampla gama de autores e conceitos ao longo dos capítulos. Essa variedade contribui para imbuir a leitura com um senso de progressão, tornando-a menos engessada. Os capítulos em cada bloco se comunicam de maneira dinâmica e se complementam, de forma que a maior parte dos argumentos mencionados não o é de forma gratuita. Para enumerar alguns desses casos: o exame crítico dos milagres é fortalecido pelo argumento do ocultamento divino, já o problema do mal pode complementar visões naturalistas e minar a hipótese do design inteligente etc. A variedade bibliográfica agrega riqueza ao livro de Benites, pois incentiva que o leitor busque a fonte do que é exposto.
Outro aspecto do texto que merece destaque é a sua clareza e concisão. O autor faz uso de exemplos palpáveis e analogias que oferecem um didatismo muito bem-vindo aos temas inerentemente abstratos. Nesse sentido, a escrita contribui para a divulgação filosófica e para o ensino de Filosofia como um todo. Matheus Benites, por sinal, administra um canal homônimo na plataforma Youtube. Nele, há vídeos que aprofundam muitos dos assuntos contemplados em “Por que não creio”, além de tratar de diversos outros tópicos filosóficos.
No entanto, embora o estilo seja elogiável, a desproporção de tamanho entre os blocos compromete, de certo modo, o equilíbrio da obra: das mais de 180 páginas que a compõem, pelo menos 70 delas compreendem o bloco histórico-crítico¹. Consequentemente, boa parte de “Por que não creio” acaba sendo focada em minar o Cristianismo enquanto religião, o que, por si só, não justifica a adoção do ateísmo. Esse espaço poderia ser utilizado com vistas a um maior desenvolvimento das reflexões filosóficas, que acabam comprimidas ou excessivamente gerais diante da complexidade dos temas tratados.
A definição de religião adotada é firmada num rápido transcorrer de alguns parágrafos e autores, sem desenvolver mais detalhadamente por qual razão a definição escolhida seria preferível a outras. Assim, o tratamento dado a religião pode soar formalista, pois sublinha muito seus aspectos ritualísticos e comunais em detrimento da própria experiência do sagrado ou dos elementos valorativos envolvidos na prática religiosa. Além disso, sobretudo quanto à crítica textual, há uma ausência de contrapontos teóricos: Bart Ehrman, muito citado na obra, é rebatido por autores teístas como Brant Pitre, mas tais réplicas não são citadas em momento algum. Ao não mencionar o contraditório, as ideias do livro perdem força numa câmara de eco. O mesmo, felizmente, não ocorre no bloco filosófico, onde são citados autores como Alvin Plantinga, John Hick e importantes pensadores medievais como Aquino.
A postura assumidamente irônica de Benites por vezes se torna repetitiva e desdenhosa, afastando possíveis interlocutores e prejudicando o rigor argumentativo. Não é como se esse artifício fosse incomum na história da filosofia: Sócrates – conforme retratado por Platão -, Marx, Nietzsche e muitos outros filósofos o utilizaram, mas a sua dosagem faz a diferença para culminar numa escrita que soa excessiva e triunfalista em vez de analítica e intelectualmente sóbria. Em uma dada passagem, Benites afirma:
“Dostoiévski estava equivocado quando defendeu (sem usar essas exatas palavras, aliás) em Os Irmãos Karamázov que, se Deus não existe, tudo é permitido. A História diz outra coisa. Séculos de exploração, perseguição, terror psicológico, guerras religiosas e dogmatismo religioso demonstraram muito bem que, em nome de Deus, tudo é permitido.” (p.20)
A despeito da convicção que expressa, Benites desconsidera que a famosa citação a respeito de Deus é feita no contexto de um debate teológico no interior do romance. Não é uma declaração de Dostoievski, mas do personagem Ivan Karamazov, que também escreve o poema “O Grande Inquisidor”: no escrito de Ivan, Jesus Cristo retorna ao mundo dos homens e é condenado pela Inquisição Espanhola, que reconhece instrumentalizar a fé como meio de poder político. Essa ambiguidade contida no romance enfraquece a leitura de “Se Deus não existe, tudo é permitido” como uma simples tomada de posição da parte de Dostoievski. Tanto a frase de Ivan quanto o seu poema revelam nuances e tensões internas ao debate sobre religião e moralidade², infelizmente simplificadas por Benites.
Como introdução ao ateísmo, “Por que não creio” é uma boa obra, mesmo com defeitos pontuais. O formato do livro é benéfico caso se deseje ter um acesso mais prático e eficaz à discussão sobre a (in)existência de Deus, sendo recomendado para leitores interessados nos campos da Filosofia da Religião e também da Ética. O texto de Benites representa uma tentativa elogiável de abordar uma questão cuja controvérsia parece jamais ter fim, além de demonstrar o cuidado do autor na seleção bibliográfica e no recorte dos argumentos. Na qualidade de divulgador filosófico e educador, o autor cumpre seu papel com a devida competência, oferecendo um trabalho convidativo e direto no que se propõe.
Notas
[1] A versão do livro que foi resenhada é a digital. Na versão física, constam 156 páginas. Dado que o conteúdo é idêntico, as diferenças de proporção se mantêm.
[2] A menção ao “tudo é permitido” e o texto do Grande Inquisidor podem ser encontrados, respectivamente, nas páginas 88 e 280 de “Os Irmãos Karamazov”, na edição publicada pela Martin Claret e traduzida por Herculano Villas-Boas (2019).