Resenha - Do cognitivismo prático ao cuidado respeitoso
Lucas M. Dalsotto
Doutor em Filosofia pela UFSM
08/09/2026
Especial Lançamentos de livros - XXI Encontro Anpof
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orgs. Marciano Adilio Spica e Léo Peruzzo
Editora Unicentro, 2026 | Acesse aqui
O que significa defender a existência de um saber moral genuíno, distinto do saber proposicional e capaz de contornar as principais dificuldades enfrentadas por teorias relativistas e dogmáticas? É possível que cuidado e respeito componham uma única atitude ética sem que um necessariamente anule o outro? Uma teoria moral que reúna deontologia, consequencialismo e ética das virtudes pode ser internamente coerente? Que papel ainda resta à antiga noção de sabedoria prática dentro de uma filosofia moral cada vez mais dominada por sistemas normativos abstratos? Estas perguntas servem como fio condutor para apresentar a amplitude de questões filosóficas com as quais o professor Darlei Dall’Agnol tem trabalhado em toda a sua trajetória filosófica, sem esgotar, é claro, o interesse do livro organizado por Marciano Adilio Spica e Léo Peruzzo Júnior por ocasião dos seus 60 anos. Cada uma delas corresponde a um eixo temático que estrutura o próprio livro, de modo que percorrê-las já é um modo de antecipar o percurso intelectual que o leitor encontrará adiante.
Do cognitivismo prático ao cuidado respeitoso reúne trinta capítulos escritos por pesquisadores brasileiros e estrangeiros, publicado pela Editora Unicentro em 2026 (Spica; Peruzzo Júnior, 2026).O volume nasce do Symposium CPCR, realizado em Florianópolis em janeiro de 2025, e conserva o espírito de discussão direta daquele encontro. Cada capítulo dialoga com um aspecto específico do pensamento de Dall’Agnol e recebe, ao final de cada uma das quatro partes do livro, uma réplica do próprio homenageado. Infelizmente algo raro entre nós, esse formato textual transforma a homenagem em algo mais robusto que uma simples coletânea comemorativa, pois instaura um exercício vivo de argumentação filosófica, no qual autor e intérpretes seguem discutindo depois que o texto já foi escrito. Poucas homenagens acadêmicas conseguem esse efeito porque a maioria se restringe a elogiar de longe a obra celebrada, ao passo que aqui o próprio homenageado é convocado a responder, capítulo a capítulo, às leituras que foram sendo feitas de seu trabalho.
A obra abre com uma entrevista conduzida por Milene Consenso Tonetto, que funciona como panorama biográfico e conceitual da trajetória do homenageado (Spica; Peruzzo Júnior, 2026, p. 15-33). Ali, Dall’Agnol reconstrói seu percurso desde a formação seminarista em Caxias do Sul, passando pelo desencanto com a fenomenologia husserliana, o encontro decisivo com o Tractatus de Wittgenstein sob orientação de Balthazar Barbosa Filho, o doutorado em Bristol sobre o valor intrínseco em Moore e o pós-doutorado em Michigan junto a Stephen Darwall, Allan Gibbard e Peter Railton. É desse itinerário que nascem as duas teses que dão nome ao livro, a saber, o cognitivismo prático em metaética e a teoria normativa tríplice, herdeira e reformadora da proposta de Derek Parfit (2011), ambas desaguando no conceito de cuidado respeitoso que o autor cunhou para a bioética. A entrevista ainda tem o mérito adicional de mostrar como cada uma dessas etapas decorre organicamente da anterior, de sorte que mesmo o leitor menos familiarizado com metaética consegue acompanhar a unitas ordinis de uma obra construída ao longo de mais de três décadas.
As quatro partes do livro seguem essa arquitetura conceitual com notável coerência e generosidade argumentativa. A primeira parte (“Ética e sua História”) situa Dall’Agnol num diálogo com a tradição da filosofia por meio de textos de Bortolo Valle, Alessandro Pinzani, João Hobuss, Idalgo J. Sangalli, Maria Borges, Daniel Omar Perez e Ivan Domingues, que discutem desde a ética das virtudes aristotélica até a moral repressora na leitura psicanalítica e o lugar da filosofia brasileira, compondo um pano de fundo histórico sem o qual as teses metaéticas apresentadas na sequência do texto perderiam parte de seu sentido. A segunda parte (“Metaética: Cognitivismo Prático”) trata da arquitetura metanormativa que dá nome à teoria de Dall’Agnol e reúne trabalhos de Peter Railton, Frederick Rauscher, Vicente Sanfélix Vidarte, David Pérez Chico, Silvio Kavetski, Monica Franco, Léo Peruzzo Júnior e Marciano Adilio Spica, todos debruçados sobre a tese central de que o conhecimento moral se compreende melhor como um saber-como (know how) do que como um saber-que (know that) proposicional, cada qual explorando essa tese a partir de um ângulo distinto, seja o da filosofia da linguagem, seja o da epistemologia moral. A terceira parte (“Teoria Normativa Tríplice”) examina a reformulação que Dall’Agnol propõe da teoria de Parfit com contribuições de Roger Crisp, Cinara Nahra, Delamar José Volpato Dutra, Andrei Luiz Lodéa, Jonathan Elizondo Orozco e Jean-Christophe Merle, que testam a proposta contra objeções vindas do contratualismo, do kantismo e dos direitos dos animais não humanos num intercâmbio de argumentos que revela o processo de revisão da própria teoria. A quarta parte (“Cuidado Respeitoso”) aplica esse quadro teórico a um conjunto de problemas bioéticos, incluindo o suicídio assistido, o cuidado com recém-nascidos extremamente prematuros, os desafios éticos da tecnologia e a possibilidade de um Estado global, e conta com textos de Stephen Darwall, Maria Clara Dias, Alcino Eduardo Bonella, Telma de Souza Birchal, Gilmar Evandro Szczepanik, Marco Antonio Azevedo, Nick Zangwill e Gustavo Fornari Dall’Agnol.
Como método editorial, creio ser digno de nota a decisão de manter os capítulos na língua original dos autores que compõem a obra, de modo que o leitor encontrará textos em português, espanhol e inglês lado a lado (Spica; Peruzzo Júnior, 2026, p. 10). Acredito que a escolha tem um efeito interessante sobre a leitura, pois evidencia sem qualquer artificialismo que o trabalho filosófico de Dall’Agnol já circula e é discutido para além das fronteiras nacionais. Além disso, a amplitude e diversidade de vozes reunidas neste Festschrift merecem um especial registro, tanto pelo número de comentadores quanto pelo arco geracional que representam. Ali estão os próprios pesquisadores que orientaram Dall’Agnol durante o pós-doutorado em Michigan, ao lado de antigos orientandos seus que hoje ocupam posições consolidadas em universidades e institutos de pesquisa pelo Brasil, retrato vivo de uma rede acadêmica tecida ao longo de décadas de convivência intelectual. A essa diversidade geracional soma-se a diversidade institucional, com autores vinculados a universidades brasileiras de diferentes regiões e a instituições da Espanha, do México, da Alemanha, do Reino Unido e dos Estados Unidos, o que me parece confirmar o argumento apresentado no prefácio segundo o qual esta é também “uma homenagem à filosofia brasileira como um todo” (Spica; Peruzzo Júnior, 2026, p. 8). A meu ver, a reunião desse grupo de pesquisadores já diz muito sobre o alcance que o trabalho filosófico de Dall’Agnol conquistou nacional e internacionalmente.
Antes de encerrar, gostaria de destacar algo que me parece ser uma marca da obra do professor Dall’Agnol e para a qual todos nós deveríamos olhar. Há, no Brasil, uma produção filosófica de altíssima qualidade sendo feita, e este livro é prova exemplar disso. Um Festschrift capaz de reunir trinta autores de vários países, entre eles alguns dos nomes mais respeitados da metaética e da ética normativa contemporâneas, em torno da obra de um filósofo formado e atuante no Brasil, discutida com o mesmo rigor que se dedicaria a qualquer clássico europeu ou norte-americano, mostra que a produção nacional já dialoga de igual para igual com a produção internacional. Talvez esta publicação seja também um convite para nos lermos uns aos outros com a mesma atenção que dedicamos aos autores estrangeiros e para discutirmos nossa própria produção em consonância com o que se faz internacionalmente. Esse chamamento não nasce de paternalismo nem de corporativismo profissional, mas do simples diagnóstico de que todos ganhamos quando essa leitura mútua se torna hábito, pois é dela que nasce uma comunidade filosófica nacional mais forte e pulsante. Fica, portanto, o convite à leitura integral desta obra como amostra do que já é realidade comum e estabelecida na filosofia produzida no Brasil.