Resenha do livro 'O Fake'

Adriel Fonteles de Moura

Doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Paraná

13/08/2026

Especial Lançamentos de livros - XXI Encontro Anpof

de Benito Maeso
Editora Platô, 2024 | Acesse aqui

Lançado em 2024, pelo filósofo Dr. Benito Maeso (IFPR), o livro O fake: O que é isso? E por que vivemos nele? Faz uma profunda investigação das relações contemporâneas em momento de turbulência tecnocrática gerenciada pelas big tech. A obra atesta como o fake estrutura desde as relações sociais e políticas à construção de narrativas de novos modelos de realidades, sem com que haja alguma correspondência com a realidade dos fatos. Onde? Na democracia, onde discurso de ódio se torna liberdade de expressão, na aceitação de narrativas falsas sobre invenções de fatos, na defesa ao terraplanismo, etc. Em resumo, o livro, de forma muito didática e (tragi)cômica, mostra que O fake é a verdade e a palavra de ordem. E Benito faz isso com singular maestria.

O primeiro capítulo faz um importante levantamento das categorias que definem o fake, demonstrando a complexidade deste conceito e a importância filosófica de não vê-lo apenas como oposição à verdade. O segundo capítulo já faz um aprofundamento dos traços psicológicos do ser humano e sobre os conflitos existentes entre a percepção de nós mesmos, a percepção do outro e como isso implica a construção fake da nossa vida. Já o capítulo 3 trata das consequências sociais e reais a respeito da confusão que temos em relação às desinformações condicionantes da personalidade, que torna o fake um modo de vida. Na sequência, o capítulo 4 traz as consequências nefastas de como as relações de poder fake são capazes de alterar a estrutura psicológica individual, política e geopolítica, fazendo com que a existência e a condição humana deixem de ter um amparo real para se sustentar. Em tom conclusivo, o capítulo 5 mostra que não temos como dar fim ao fake, mas que caberia a cada um de nós a responsabilidade de trabalhar as relações individuais, de modo desafiador, para trazer a dúvida às narrativas fake.

Uma das condições para entendermos o que é o fake é a diferenciação entre informação e conhecimento. Basicamente, o primeiro diz respeito ao “conjunto de dados que servem para explicar fatos ou descrever processos” e o segundo, ao “conjunto de informações às quais é possível dar um sentido e usá-las para criar um modelo de explicação da realidade” (p. 18). Deste modo, a passagem da informação para o conhecimento exige um processo de construção de sentido às informações. Contudo, vivemos em um momento da história em que há tanta informação disponível a ponto de ficar difícil saber o valor de verdade delas. Isso abre uma janela de oportunidade para que as opiniões individuais tenham mais peso do que o conhecimento, dando ao indivíduo a chancela para escolher uma verdade para si. Esse tipo de procedimento já era denunciado por Sócrates contra os sofistas, pela clássica distinção entre doxa e episteme. Na contemporaneidade, este processo é denominado como pós-verdade, conceito guarda-chuva que abarca as fake news. Vale ressaltar aqui que as fake news não são construídas com informações falsas necessariamente, mas podem possuir informações reais, dispostas de modo a confundir e causar reações inconscientes previamente esperadas. Portanto, o que vale no fake não é o seu teor de falsidade, mas o seu poder de convencimento e propagação, muito mais célere do que do conhecimento verdadeiro.

Outra característica do fake presente no livro é a sua capacidade de produzir discursos lacunares, ou seja, “você lê o que quer e complementa com o que já pensa” (p. 30). No fake, uma palavra que seja pode possuir significados diferentes a depender do contexto, a tal ponto de que o seu produto destoa da informação original. Muitos destes produtos são construídos pela complementação subjetiva da narrativa, sinalizando que o fake não produz necessariamente discursos falsos, mas discursos vazios, induzindo o indivíduo a reagir conforme as intencionalidades do emissor. Isso traz uma falsa sensação de que o indivíduo receptor tenha capacidade crítica. Podemos citar como exemplo posts que descrevem uma situação irreal, mas que “dá a chance” ao espectador de pensar e tirar suas conclusões. Na verdade, é uma antecipação da reação do espectador, que vai confirmar a veracidade do fake não com base em critérios racionais, mas afetivos. Quanto mais ele consome conteúdo fake, mais propenso ele estará para confirmar e completar a lacuna deixada por outras notícias fake.

No campo psicológico, o fake desperta em cada um de nós uma personalidade autoritária. Benito conclui que a personalidade autoritária é um traço potencialmente presente em cada um de nós, de diversas maneiras. Sobre este ponto, o autor elenca características que são próprias a esta personalidade. Uma delas é o convencionalismo, que consiste em “aceitar e defender obstinadamente valores tradicionais sem se perguntar as razões disso” (p. 41). O fake apela por princípio a uma valorização obsessiva pela tradição, sendo o sustentáculo ético e moral do indivíduo comum. Abalando tais valores, o indivíduo se torna suscetível a reagir violentamente a qualquer suposto atentado a tais valores. Isso justifica o fake em se basear nos fundamentalismos religiosos, visto que os emissores de notícias fake têm consciência de que este é um ponto sensível às pessoas. Outra característica da personalidade autoritária que podemos pontuar como efeito colateral é a agressão autoritária, a saber, a “tendência em descontar sua raiva em grupos mais frágeis, como minorias sociais, pessoas pobres, mulheres e crianças” (p. 41). É possível estender esta agressão a qualquer pessoa que vai de encontro ao estereótipo do que há de mais tradicional. Em suma, o fake é capaz de tornar as singularidades em massa homogênea pelo ódio a qualquer um que ouse perturbar os valores tradicionais unam a maioria.

Porém, é possível dizer que a personalidade autoritária e a racionalidade são opostas? Para Benito, de nenhuma maneira. Um elemento especialmente importante, capaz de trazer racionalização à agressividade, é o cinismo: “são as desculpas que inventamos para justificar as vontades violentas que muitas vezes as pessoas têm” (p. 48). Isso deixa claro que a racionalização, por si só, não é o único sustentáculo da verdade; ela pode ser utilizada para esclarecer as contradições operantes na relação entre indivíduo e produto do fake. Isso faz com que o indivíduo perceba racionalmente que, por mais absurdo que seja um fenômeno fake, mais absurdo ele achará o que é real. Um exemplo interessante presente no livro está no oxímoro “intervenção militar para a manutenção da democracia”. A princípio, observa-se atentamente esta contradição, mas para um cínico, trata-se de um discurso que faz algum sentido, na medida em que se justifica atentados em prol de um bem maior, seja a liberdade ou a democracia. Na prática, sabemos que não é uma coisa e nem outra. A causa final desta espécie de cinismo é a cessação absoluta da diversidade de pensamentos e a defesa do estado autoritário que utilizará, ética e legalmente, o seu aparelho para eliminar as diferenças, mesmo que simbolicamente.

O fake é um modo de vida que “encontra em si seu referencial de verdade, validação discursiva e suporte emocional” (p. 53). É possível perceber que o fake está além de uma simples oposição e conflito entre o verdadeiro e o falso. Aqui, o fake corresponde a uma constelação hermética de relações individuais e coletivas que compartilham entre si comportamentos e ideais delirantes, validados por reações emocionais que se traduzem como verdade. Desta maneira, não seria exagero dizer que o fake se aproxima de uma seita religiosa, dadas as profundas alterações causadas na forma de viver de seus sectários. As seitas fakes são lugares de manifestação e de acolhimento da raiva e do ressentimento que levam, inclusive, pessoas dos extratos mais baixos da sociedade a serem acolhidas nesta esfera de existência. Para estes indivíduos, não importa se há verdade nesta esfera de existência, o que importa é que funciona.

Enfim, o livro encerra com a negativa sobre a possibilidade de acabar com o fake. A máquina arquitetada para a produção de desinformação é complexa e orquestra uma narrativa fictícia acerca dos fatos na mente de grande parte das pessoas. Seria uma ingenuidade acreditar que é possível romper com essa máquina respondendo com ódio às pessoas que se sujeitaram a esta realidade. Se grande parte do coletivo se sente acolhida e contemplada pela realidade fake, quem defende o conhecimento já não tem mais nada a oferecer a essas pessoas. E insistir no erro de tentar separar os indivíduos já subjugados à realidade fake pelo privilégio do pensamento significa jogar mais combustível a este maquinário. Se quisermos fazer com que as pessoas possam voltar a pensar, precisamos fazer isso de forma similar ao maquinário fake, começando com o nosso entorno. Através do constante desafio ao pensamento das pessoas, há a possibilidade de fazê-las questionar o que consideram como verdade. Isso demora e não há garantias de que funcionará. É necessário, assim, desempenhar esta tarefa como uma forma de resistência, mas de insistência ao pensamento, o que torna a leitura de O fake indispensável.