Spectrophilia: aquilo que desaparece sem deixar de existir
Pol Iryo
Mestrando em Filosofia na USP
08/09/2026
Especial Lançamentos de livros - XXI Encontro Anpof

de shajara néehilan bensusan
Cultura e Barbárie, 2025 | Acesse aqui
Escrevo esta resenha enquanto revisito meu livro spectrophilico, que carrega em si fantasmas de anotações de uma leitura anterior. Faz cerca de um ano que li o livro pela primeira vez e, naquela ocasião, enchi suas páginas de adesivos com temática de bichos para marcar aquilo que mais me saltou aos olhos. Voltar agora à Spectrophilia é também experimentar aquilo que o próprio livro parece mostrar: nenhuma recuperação acontece de maneira pura, igual e total. Um livro também pode nos assombrar depois de fechado.
Spectrophilia é dividido em três partes — “Depois da vida”, “Spectrophiliaaaa” e “Reza” — que não parecem simplesmente suceder umas às outras, mas se sobrepõem. Palavras carregadas de erotismo exalam cheiros, tesão, suor. É uma tarefa difícil escrever uma resenha sobre uma obra tão múltipla e pulsante, tão complexa quanto os dilemas que a vida e a morte nos invocam. Spectrophilia pode ser sobre esquecimento, assim como memória. Pode ser sobre desejo, assim como repulsa. Pode ser sobre presença, assim como ausência.
É um texto que vai, vem, volta, vai de novo, esquece, volta, se lembra. O trabalho de Shajara com as palavras é feitiço. Lembro da primeira vez que sentei para dar uma olhada rápida, mas suas palavras me hipnotizaram. Quando vi, já tinha acabado a primeira sessão. Tudo ainda meio confuso. E talvez essa seja justamente a beleza de adentrar uma obra: existe uma temporalidade necessária para se situar nela. Talvez também seja necessário deixar que ela nos desoriente antes de tentar dizer o que ela é.
É significativo que a primeira sessão tenha como uma de suas principais personagens uma pessoa trans*. Todo mundo carrega espectros em suas vidas, afinal, todo corpo tem uma história. Nasce em um contexto geográfico, histórico, temporal, cultural, tecnológico e cósmico específico. Mas pessoas trans* carregam espectros que desafiam particularmente a busca por coerência e familiaridade que a cis-heteronormatividade impõe aos corpos. Os espectros trans* são curiosos porque provocam um curto-circuito nas regras do mundo em que vivemos.
“Nome morto” é uma expressão recorrente para designar o nome de registro de uma pessoa trans* que optou por alterá-lo. No caso do livro, Dalton se torna Toninha. Mas o próprio termo “nome morto” está sujeito a uma série de problemas. Afinal, alguém morre quando transiciona? Talvez Shajara nos provoque a procurar outro vocabulário: o nome espectral.
Quando alguém transiciona, essa pessoa não morre. Ela sofre uma mutação. E talvez seja justamente aí que a imagem do espectro se torne mais interessante. O passado não desaparece simplesmente porque o presente se transformou. Ele permanece, mas não necessariamente como essência, origem ou identidade verdadeira. Permanece como aquilo que pode retornar, ser refeito, assombrar e ser traduzido. Como uma larva que se torna borboleta, não precisamos dizer que a larva morreu para que a borboleta exista. Há transformação, continuidade e diferença ao mesmo tempo.
É nesse sentido que Spectrophilia me parece uma obra profundamente queer. Não porque simplesmente contenha personagens ou temas queer, mas porque parece desconfiar da própria necessidade de separar as coisas em identidades estáveis. O livro brinca com gêneros — Geschlecht. Transita pela raça — Geschlecht. Trepa com o sexo — Geschlecht. E, ao fazer isso, parece também embaralhar a taxonomia dos saberes biológicos: Reino, Filo, Classe, Ordem, Família, Gênero, Espécie.
As coisas se confundem como nas cartas que constituem o jogo da memória. Uma carta que parecia estar em determinado lugar reaparece em outro. Uma palavra muda de sentido quando colocada ao lado de outra. O que parecia separado passa a estabelecer uma relação. Não há uma simples recusa das classificações, mas a possibilidade de fazer com que as próprias classificações se contaminem.
“O ensinamento animista é um ensinamento sobre a comilança humana: tudo que se come tem alma.” Falar sobre comer pode ter uma dupla conotação e arrisco dizer que a espectrofilia se faz presente em ambos os sentidos. Comer é incorporar o outro, mas também é uma relação de desejo. O corpo nunca é inteiramente próprio: ele é feito de outros corpos, de outras matérias, de outros tempos.
Aqui, Spectrophilia parece encontrar uma questão que atravessa também o pensamento de Donna Haraway: a dificuldade de imaginar um corpo como uma unidade autônoma, encerrada em si mesma. Somos feitos de encontros, de parentescos estranhos, de criaturas que nos constituem e que constituímos. Mas Shajara leva essa questão para um território ainda mais espectral. Não se trata apenas de perguntar com quem ou com o que fazemos parentesco, mas também de perguntar quem continua conosco quando acreditamos que já passou.
A Spectrophilia, nesse sentido, é uma torção da linha temporal moderna. Passado, presente e futuro deixam de funcionar como compartimentos ordenados. O passado se confunde com o presente e com os futuros possíveis. Octavia Butler, citada no livro, aparece como uma importante companhia para esse embaralhamento das linhas temporais. Não estamos diante de um tempo que simplesmente progride, nem de uma estrutura que pudesse ser organizada de maneira inteiramente transparente pelas condições formais de um sujeito transcendental. O tempo de Spectrophilia é outro: múltiplo, viscoso, contaminado, capaz de fazer coexistirem aquilo que intuitivamente podemos insistir em separar.
Por isso, a espectrofilia não é simplesmente uma metáfora sobre fantasmas. Ela é uma metáfora situada. Tem carne e história. Tem raça, gênero, sexo e espécie. Tem corpo. Nesse ponto, as aproximações com autoras e autores como Denise Ferreira da Silva e Fred Moten ajudam a perceber que o espectro nunca é uma figura abstrata pairando sobre o mundo. Há histórias específicas que foram tornadas espectrais; corpos que foram transformados em ausência; vidas cuja presença foi recusada justamente porque não cabiam nas categorias disponíveis para reconhecê-las.
O espectro, então, não é simplesmente aquilo que ficou para trás. É aquilo que continua produzindo efeitos. Não é necessariamente uma presença que retorna, mas uma forma de coexistência. “Cada arquivo é recuperado a seu tempo, nenhuma recuperação se dá de uma vez por todas — o espectro, como a aparição, requer o tempo que faz surgir e que desvanece.”1 Talvez essa seja também a melhor maneira de explicar por que escrevo esta resenha um ano depois da primeira leitura. Não estou simplesmente retornando a um livro que já li. Estou encontrando outro livro porque também não sou exatamente quem o leu pela primeira vez.
Um arquivo é recuperado a seu tempo. Um nome é recuperado a seu tempo. Um corpo é recuperado a seu tempo. Uma memória é recuperada a seu tempo. E talvez uma leitura também. Spectrophilia é um livro sobre aquilo que não termina quando termina. Sobre aquilo que desaparece sem deixar de existir. Sobre aquilo que muda sem morrer. Sobre os corpos que carregam outros corpos, os nomes que carregam outros nomes, os tempos que carregam outros tempos, os corpos que carregam outros nomes, os nomes que carregam outros tempos, os tempos que carregam outros corpos.
É nesse sentido que Spectrophilia é, para mim, também uma experiência de leitura sobre a possibilidade de ser assombrado. Aceitar que nem tudo precisa ser resolvido, que nem toda presença precisa ser identificada, que nem toda ausência precisa ser preenchida. Algumas coisas podem permanecer espectrais. Algumas coisas podem continuar voltando. Nessa permanência instável, entre o aparecer e o desaparecer, entre a vida e a morte, entre o bicho e o humano, entre o passado e o futuro, que Shajara encontra uma das formas mais cativantes de escrever o presente.
1 Spectrophilia, 2025, p.119.