A filosofia e os afetos - há sentido em falar de uma "virada afetiva" na filosofia contemporânea?
Felipe Nogueira de Carvalho
Professor (UFLA)
Daniel De Luca-Noronha
Professor assistente na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE)
01/04/2026 • Coluna ANPOF
Em colaboração com GT Filosofia das Emoções da Anpof
Não é incomum ouvir que a filosofia passou por uma "virada afetiva" recente, no sentido de que já não seria possível ignorar as emoções e os afetos em diversos domínios filosóficos tradicionais como mente, conhecimento, moralidade, etc. Convém, porém, não confundir essa afirmação com a tese mais forte de que os filósofos canônicos ocidentais teriam ignorado os afetos em suas análises filosóficas. Longe disso, as emoções sempre estiveram no radar desses filósofos, pelo menos desde a antiguidade, tanto na Grécia antiga quanto em tradições não ocidentais, como a filosofia chinesa ou indiana (COSTA, 2022; CARVALHO & WILLIGES, 2023). Aristóteles já reconhecia que processos cognitivos estavam totalmente imbricados com as emoções, definidas por ele como "sentimentos que mudam os homens [sic] de modo a afetar seu julgamento e que são acompanhados de prazer ou dor" (Retórica, 1378a19-21). As emoções também ocupavam um lugar central na ética estoica, onde encontramos uma sofisticada teoria judicialista das emoções que alguns milênios mais tarde seria retomada por Martha Nussbaum (2004; ver também VIESENTEINER & FEITOZA, 2025).
Séculos depois, ainda antes da suposta "virada afetiva" recente, a filosofia moderna reiterou a importância dos afetos em processos cognitivos e epistêmicos. Autores como Hume e Descartes ressaltaram o papel de emoções como curiosidade ou admiração na aquisição de conhecimento do mundo natural, ao motivar projetos epistêmicos e direcionar a atenção a objetos cognitivos (CARVALHO & WILLIGES, 2023). Filósofos como Adam Smith e o próprio Hume também atribuíram às emoções uma função central no desenvolvimento moral, tanto em sentimentos de desaprovação, como a raiva ou culpa, quanto de aprovação, como orgulho ou admiração moral (ibid.). Sob esse olhar histórico, a tese de uma virada afetiva parece não trazer nada de inédito à filosofia. Há, então, sentido em falar de uma "virada afetiva" contemporânea?
Gostaríamos de sugerir que sim. O objetivo desta coluna é explicitar os ganhos conceituais e metodológicos decorrentes da centralização dos afetos na filosofia, algo que só se consolida na era contemporânea, mesmo que antecipado, de certa forma, por autores e autoras anteriores. Nosso argumento é, portanto, que há algo inédito na virada afetiva recente. Embora os afetos sempre tenham ocupado um lugar importante em concepções filosóficas de racionalidade, moralidade e conhecimento, também é verdade que, em geral, permaneceram subordinados a normas de racionalidade. As emoções deviam ser cultivadas para que um argumento seja mais persuasivo, uma emoção deveria ser mobilizada para que um conhecimento científico seja mais facilmente adquirido e retido, e assim por diante. Mas o que a virada afetiva traz consigo não é apenas que os afetos fazem parte de nossa economia mental, mas sim que esse lugar é, de alguma forma, mais básico e fundamental do que processos cognitivos, figurando como conceito de base em teorias políticas, epistêmicas ou morais. Um prenúncio dessa ideia já pode ser encontrado na afirmação humeana de que “a razão é, e só pode ser, escrava das paixões; só pode pretender ao papel de as servir e obedecer a elas” (HUME, 2009, p. 451). Em outras palavras, todo processo cognitivo é essencialmente motivado; investigamos um certo domínio porque nos importamos com o resultado de nossas investigações, e esse "se importar" é fundamentalmente afetivo.
Essa ideia será fundamental para a tradição fenomenológica, que a compreenderá não como um acréscimo afetivo ao conhecimento racional, mas como condição de inteligibilidade do mundo. Nas análises de autores como Martin Heidegger (2012) e, mais recentemente, Matthew Ratcliffe (2023), o “importar-se” designa uma orientação afetiva corporificada que estrutura antecipadamente a experiência, configurando o ambiente como um todo significativo de possibilidades, metas e relevâncias. Nessa perspectiva, os afetos não apenas acompanham a cognição, mas tornam-se os meios pelos quais o mundo se torna desde o início algo que nos concerne. Quando essa sintonia afetiva basal se rompe ou se empobrece, todo o campo de sentido experiencial pode se alterar, fenômeno associado a condições como depressão ou esquizofrenia. Investigar tais perturbações como distúrbios da estrutura afetiva pré-reflexiva tornou-se um dos programas mais fecundos da pesquisa contemporânea em filosofia da psiquiatria, como mostram os trabalhos de Reis (2024) e Lopes (2024), entre outros.
Para além da fenomenologia, a virada afetiva também colocou os afetos como chaves analíticas indispensáveis para diagnosticar estruturas políticas, sobretudo em contextos de injustiça e opressão. Essa tese é desenvolvida por Amia Srinivasan (2018), que sustenta que regimes sociais injustos não apenas distribuem desigualmente recursos e direitos, mas também moldam o espaço das respostas afetivas apropriadas, produzindo formas de injustiça propriamente afetivas, nas quais sujeitos são penalizados por sentirem o que seria normativamente adequado. Desenvolvimentos mais recentes, como os de Silva (2021), Bello (2024) e Williges (2023) reforçam essa tese ao mostrarem que emoções como a raiva podem desempenhar funções epistêmicas, morais e pragmáticas decisivas, motivando ação coletiva construtiva e promovendo reconhecimento intergrupal. O resultado convergente é a tese de que as emoções constituem instrumentos críticos privilegiados para revelar, contestar e reconfigurar ordens sociais injustas.
Nesse horizonte, a tese da invasão mental formulada por Jan Slaby (CARVALHO, 2025) radicaliza a convergência entre fenomenologia e política ao sustentar que disputas de poder atuam diretamente na modulação dos afetos, sobretudo em ambientes corporativos estruturados para produzir alinhamento motivacional e identificação existencial. Ao moldar o que sentimos, desejamos e consideramos relevante, tais dispositivos reconfiguram o campo de significação em que o mundo nos aparece, fazendo com que horizontes de preocupações coincidam com interesses econômicos corporativos. Assim, a análise afetiva revela-se simultaneamente fenomenológica e política: ela mostra que controlar afetos é, em última instância, controlar o mundo tal como experienciado pelo sujeito.
Efeitos similares são observados na filosofia da cognição social, desafiando modelos clássicos que explicam a compreensão das outras mentes exclusivamente por meio de capacidades cognitivas de alto nível (FAGUNDES, 2018). Abordagens contemporâneas reconhecem que a interação social é profundamente estruturada por processos afetivos, em que compreender o outro não é apenas atribuir atitudes proposicionais, mas envolve uma sensibilidade afetiva capaz de captar imediatamente a relevância das situações sociais, à medida que reagimos emocionalmente às expressões, gestos e atitudes dos outros (DE LUCA-NORONHA, 2013). Trabalhos na abordagem de segunda pessoa mostram que a capacidade de interpretar ações deriva em grande medida da participação em dinâmicas afetivas compartilhadas, em que afetos funcionam como guias pragmáticos que orientam a compreensão social em tempo real (FAGUNDES, 2024).
Detalhar todos os temas e campos impactados pela virada afetiva excede o escopo desta coluna. Ainda assim, vale mencionar algumas áreas de destaque em que esse impacto é visível. A história da filosofia passou a revisitar seu cânone e identificar insights sobre as emoções que permaneceram por muito tempo subexplorados em filósofos como Kant (BORGES, 2012) ou Nietzsche (VIESENTEINER & APOLINÁRIO, 2023). A epistemologia também sofreu sua virada, seja ao ressignificar conceitos epistêmicos tradicionais como razões ou justificações a partir das emoções (SILVA, 2022), seja ao construir quadros teóricos originais que colocam os afetos no centro de práticas epistêmicas (CARVALHO & ANDRADE, 2022). Nos estudos literários, trabalhos recentes reconceitualizam a narratologia cognitiva através de ferramentas teóricas da filosofia das emoções (CHAGAS & OLIVEIRA, 2025; CAMILLO, 2022; CARVALHO & VILLALOBOS, 2026).
Nosso objetivo aqui foi esclarecer em que sentido é legítimo falar em “virada afetiva" na filosofia contemporânea. Argumentamos que a expressão não deriva apenas do reconhecimento histórico da presença dos afetos nas grandes tradições filosóficas, mas traz uma transformação do próprio fazer filosófico, passando a compreender o mundo como estruturalmente permeado por relevâncias afetivas, um efeito observado em domínios como a ética, a epistemologia, a política, a filosofia da mente, a história da filosofia, etc. O panorama aqui esboçado, com ênfase em pesquisas produzidas no Brasil, indica que esse não é um movimento marginal, mas um eixo altamente dinâmico e produtivo da investigação filosófica contemporânea.
Nesse contexto, o GT de Filosofia das Emoções surge como um espaço aberto e inclusivo de interlocução e cooperação, reunindo trabalhos que exploram, sob múltiplas perspectivas, o papel dos afetos na vida mental, social, política, moral, etc. A vitalidade dessa área na pós-graduação brasileira indica não se tratar de uma tendência passageira, mas de uma reorientação metodológica duradoura. Convidamos, portanto, pesquisadoras e pesquisadores cujos trabalhos dialoguem com esse campo a submeterem propostas ao GT no próximo encontro da ANPOF e/ou a acompanharem nossas atividades. Se a virada afetiva consiste em reconhecer que o mundo é estruturado por afetos, participar desse debate é também participar da redefinição contemporânea do próprio fazer filosófico.
Referências
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